sexta-feira, 18 de maio de 2012

Proposta de Internacionalização da Amazônia

Em 1989, a explosão dos temas ecológicos nas manchetes de jornais de todo o mundo trouxe à tona a proposta de internacionalização da Amazônia e difundiu idéias como: “Ao contrário do que os brasileiros pensam, a Amazônia não é só deles, mas de todos nós.” (Al Gore, ex vice-presidente americano e Nobel da Paz – 1989); “Só a internacionalização pode salvar a Amazônia.” (Grupo dos Cem, Cidade do México – 1989); e a afirmação dos franceses de que “os detentores das florestas tropicais úmidas devem compreender que sua soberania sobre elas é relativa.” (Conferência de Haia – 1989) causando furor nacionalista e, em contrapartida, espanto nos moradores dos Estados do Norte do Brasil que até então “eram considerados estrangeiros no próprio Brasil”, sendo corrente o seguinte ditado na região amazônica: “Aqui não é Brasil”. Só a partir de então “a região norte começa a ser considerada terra de brasileiros” pois, até este momento, a realidade era de absoluto descaso, afastamento e má administração pública brasileira, e estas idéias são reforçadas pelos seguintes depoimentos “somente nesta década (80) mais de 1000 pessoas morreram em centenas de acidentes fluviais, e nenhuma de nossas velhas gaiolas recebeu alguma cobertura jornalística...afogados no mais precário sistema de transporte fluvial do mundo – e que, por ironia, existe na maior bacia hidrográfica do planeta”.  A Amazônica era, à época, e é até hoje precioso tesouro ambiental do planeta, com inimaginável diversidade biológica e manancial de água potável, sendo assim, um dos grandes "pontos de cobiça" do mundo. Maior floresta tropical mundial, ela abriga 15% de todas as espécies de plantas e animais conhecidas além de deter enorme potencial econômico. Teve como seu maior defensor Chico Mendes (líder sindical que lutou duramente contra a extração madeireira e a expansão dos pastos na Amazônia) e acabou sendo assassinado por isso às vésperas do ano de 89 (22 de Dezembro de 1988 mais precisamente) e o Brasil só soube de sua existência e importância depois que sua morte foi noticiada pela imprensa internacional. Pelos motivos já mencionados anteriormente (descaso/afastamento em relação à Amazônia) ninguém em território brasileiro jamais imaginara que sua morte fosse merecer um editorial no The New York Times e até uma homenagem no Capitólio: os americanos estavam mais bem informados do que os próprios brasileiros (novos ufanistas). É nítido o sentimento de abandono no texto de Gilson Monteiro – estudante de comunicação social em Manaus e nortista - quando ele se diz favorável à internacionalização e faz suposições sobre ser entregue aos Estados Unidos, Japão, França, Rússia, enfim, como seria ter quem zelasse pela Amazônia. Também em 1989 Roberto Carlos compôs a música “Amazônia” que retrata a incerteza geral sobre a eficiência da administração brasileira da Amazônia, a destruição da floresta e a preocupação mundial:

Tanto amor perdido no mundo
Verdadeira selva de enganos 
A visão cruel e deserta


De um futuro de poucos anos 
Sangue verde derramado 
O solo manchado 
Feridas na Selva 
A lei do machado
Avalanches de desatinos 
Numa ambição desmedida
Absurdos contra os destinos
De tantas fontes de vida
Quanta falta de juízo 
Tolices fatais

Quem desmata, mata 
Não sabe o que faz 
Como dormir e sonhar 
Quando a fumaça no ar 
Arde nos olhos de quem pode ver

Terríveis sinais de alerta, desperta pra selva viver 
Amazônia, insônia do mundo
Amazônia, insônia do mundo
Todos os gigantes tombados
Deram suas folhas ao vento
Folhas são bilhetes deixados
Aos homens do nosso tempo

Quantos anjos queridos 
Guerreiros de fato 
De morte feridos 
Caídos no mato 
Como dormir e sonhar 
Quando a fumaça no ar 
Arde nos olhos de quem pode ver 
Terríveis sinais de alerta, desperta pra selva viver 
Amazônia, insônia do mundo.


O projeto de internacionalização da Amazônia perdura até hoje, bem como a incompetência do Brasil na gestão da Floresta. Quando o assunto é a preservação sobra discurso e falta ação por parte dos governantes. Por anos, o governo alardeou a queda do desmatamento. Em 2008, no entanto, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) revelou o contrário: a devastação havia crescido. O Brasil dispõe da mais moderna técnica de vigilância por satélite para detectar e medir o desmatamento, porém, os dados que os satélites produzem de pouco adiantam para reprimir os desmatamentos ilegais. Isso porque o Ibama conta com apenas 644 fiscais em toda a Amazônia e 4 helicópteros.
Em 1989 bastava listar algumas das características da floresta para concluir que sua extinção seria uma tragédia para a humanidade e que isso traria perturbações imprevisíveis. Contando com a tecnologia atual, pesquisas mostram que o efeito mais visível do desaparecimento da Amazônia seria o desequilíbrio das chuvas no mundo, seja na Bacia do Prata, na Califórnia, no sul dos Estados Unidos, no México ou no Oriente Médio. Mesmo com o avanço tecnológico não se sabe ao certo em que medida o desaparecimento desse extraordinário bioma afetaria o aquecimento global.Não há sinais concretos, por ora, de que uma invasão ou internacionalização seja iminente. Ao que tudo indica o impasse perdurará. De tempos em tempos esta polêmica volta à mídia internacional: em 2001, por exemplo, circulou pela internet um e-mail segundo o qual um livro didático americano já apresentava a Amazônia como região internacionalizada. O mapa e o texto eram falsos.A administração Lula/Dilma foi unânime em afirmar: a Amazônia pertence aos brasileiros. "Há visões da comunidade internacional que defendem a Amazônia como se ela fosse um território da humanidade e não território brasileiro. Isso aí esconde interesses econômicos sobre a Amazônia como uma reserva planetária para grandes multinacionais e para controles territoriais de outros países sobre o Brasil", resumiu certa vez o ex-ministro da Justiça, Tarso Genro. O governo enviou ao Congresso um projeto de lei que restringe o acesso de visitantes à Amazônia. Se a proposta for aprovada pelos parlamentares, os estrangeiros e suas organizações, incluindo as que têm vínculos religiosos, ficarão sujeitos ao controle do Ministério da Defesa. Para quem não tiver autorização e continuar atuando na Amazônia, a punição será dura: cancelamento de visto e expulsão do país. A principal preocupação do governo diz respeito ao trabalho das ONGs que atuam na região. Muitas delas têm endereço doméstico, mas capital estrangeiro, o que levanta suspeitas. Pelo projeto, as ONGs terão de pedir autorização ao Ministério da Defesa para trabalhar na região. Os infratores da nova regra também podem ter de pagar multas de até 100.000 reais.

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